Evento realizado em Campinas reuniu Embrapa, IICA e especialistas para discutir aplicações de IA, qualidade e governança de dados, conectividade e inclusão digital na agropecuária.
A digitalização da agricultura brasileira já envolve sensores, satélites, drones, máquinas automatizadas e sistemas capazes de utilizar inteligência artificial (IA) para apoiar decisões. Mas transformar essas tecnologias em ferramentas efetivamente acessíveis no campo ainda depende de fatores menos visíveis, como qualidade dos dados, conectividade, capacitação e segurança da informação.
Esses temas estiveram no centro do II Dia da Agricultura Digital, realizado em 26 de agosto de 2026, na Embrapa Agricultura Digital, em Campinas (SP). Organizado pela Embrapa e pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA Brasil), o encontro teve como tema “Conectando dados e inteligência” e integrou a programação da Semana da Agricultura Digital promovida pelo IICA.
A programação reuniu especialistas para discutir ecossistemas de inovação, tecnologias adaptadas a diferentes realidades, aplicações de IA e a relação entre dados, conectividade e governança. A Embrapa publicou as informações sobre o encontro em 31 de agosto.
Agricultura digital vai além da automação
A agricultura digital não se resume à substituição de tarefas manuais por máquinas. O avanço ocorre também na capacidade de coletar informações sobre lavouras, animais e condições produtivas e utilizá-las para orientar decisões.
Entre as aplicações abordadas no encontro estão sensores e satélites para monitoramento de safras, drones para inventário florestal, Internet das Coisas para acompanhamento de bovinos e visão computacional aplicada ao diagnóstico de doenças em plantas.
Também foram discutidos sistemas de pulverização inteligente, com máquinas capazes de identificar pragas, além de robotização e outras formas de automação.
Na prática, essas tecnologias ampliam a quantidade de informações disponíveis ao produtor e aos profissionais que atuam na cadeia agropecuária. O desafio seguinte é transformar esses dados em informação útil para uma decisão concreta.
Conexão Aguaraí — Dados agrícolas, biologia e logística
A agricultura digital pode conectar informações biológicas, produtivas e logísticas para apoiar decisões ao longo da cadeia agropecuária.
Dados sobre solo, umidade, temperatura, desenvolvimento vegetal e condições climáticas ajudam a compreender o ambiente de produção.
Depois da colheita, outras informações ganham importância, como identificação dos lotes, condições de conservação, localização dos estoques e programação do transporte.
Quando esses registros são organizados de forma compatível, produtores, cooperativas e agroindústrias podem acompanhar melhor a passagem dos produtos entre diferentes etapas.
Entretanto, integrar dados não significa garantir sua qualidade. Medições incorretas, registros incompletos e sistemas incompatíveis podem comprometer as análises.
Também é necessário considerar que diferentes produtos agrícolas exigem diferentes condições de conservação e movimentação.
Conexão Aguaraí: a biologia ajuda a compreender o produto e o ambiente; a logística organiza sua movimentação; a agricultura digital pode conectar essas informações para apoiar decisões mais fundamentadas.
Dados se tornam parte da tomada de decisão no campo
Uma das possibilidades da inteligência artificial é analisar grandes volumes de informação e identificar padrões que seriam mais difíceis de reconhecer manualmente.
No II Dia da Agricultura Digital, foram apresentados exemplos de softwares com recursos de IA capazes de apoiar decisões sobre o momento de realizar determinadas transações comerciais. A discussão também envolveu o uso dessas tecnologias para antecipar riscos e melhorar decisões relacionadas ao manejo e à utilização de insumos.
Esse processo, porém, depende da qualidade das informações disponíveis. Dados incompletos, incompatíveis ou mal administrados reduzem a capacidade dos sistemas digitais de produzir resultados confiáveis.
Nesse ponto, uma discussão institucional realizada no dia 25 de agosto, também na Embrapa Agricultura Digital, acrescenta contexto ao debate. Em reunião técnica com a AgGateway, a interoperabilidade foi apontada como um dos desafios enfrentados pelas empresas que desenvolvem tecnologias para o setor.
Interoperabilidade, nesse contexto, significa permitir que dados provenientes de diferentes máquinas, plataformas e sistemas possam ser utilizados de forma compatível. Não basta, portanto, aumentar a coleta de informações: é necessário criar condições para que elas possam circular e ser aproveitadas adequadamente.
Conectividade ainda limita a transformação digital
A disponibilidade de tecnologias cada vez mais sofisticadas não significa que sua adoção ocorra de maneira uniforme no território brasileiro.
Durante o encontro de 26 de agosto, conectividade e capacitação apareceram entre os principais obstáculos para ampliar a agricultura digital. Também foram discutidos acesso às tecnologias, custos, necessidade de treinamento e participação da assistência técnica e da extensão rural.
A questão ganha importância principalmente quando se consideram propriedades e comunidades situadas em regiões com infraestrutura digital limitada. O debate abordou os chamados “desertos digitais” e a necessidade de incluir pequenos produtores, agricultores familiares, povos indígenas e comunidades quilombolas no processo de digitalização.
Assim, ampliar a agricultura digital envolve mais do que disponibilizar equipamentos ou softwares. Internet adequada, letramento digital e profissionais capacitados também fazem parte da infraestrutura necessária para transformar dados em decisões úteis.
Agricultura de precisão, análise de dados e outras áreas ligadas à digitalização do campo ampliam a importância de competências técnicas e digitais.
IA amplia aplicações, mas exige governança
À medida que dados ganham importância na produção agropecuária, aumenta também a necessidade de definir como essas informações são coletadas, utilizadas, protegidas e compartilhadas.
A publicação da Embrapa sobre a reunião técnica com a AgGateway, divulgada em 28 de agosto, registra discussões sobre ética, proteção de dados, Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e governança aplicada à inteligência artificial.
O debate envolve tanto informações relacionadas à produção — como dados de solo, clima e produtividade — quanto informações estratégicas, entre elas preços e contratos.
A mesma publicação informa que mais de 759 projetos da Embrapa utilizaram inteligência artificial entre 2007 e 2025. O número ajuda a dimensionar a presença da tecnologia na pesquisa agropecuária, mas não significa que essas aplicações estejam igualmente disponíveis ou disseminadas entre produtores rurais.
Qualidade dos dados, segurança da informação e definição de regras de governança tornam-se, portanto, parte do desenvolvimento tecnológico, e não apenas questões posteriores à implantação dos sistemas.
Estudo Aplicado Aguaraí — Integração digital em uma cooperativa agrícola
Estudo hipotético, exclusivamente educativo. Não representa uma cooperativa real nem apresenta resultados operacionais medidos.
Imagine uma cooperativa que recebe frutas e hortaliças de pequenos produtores e distribui os produtos para mercados regionais.
A organização utiliza planilhas diferentes para registrar recebimentos, estoques e entregas, dificultando a comparação das informações.
Etapa 1 — Diagnóstico
A equipe identifica quais dados são registrados, quem os utiliza e quais problemas ocorrem na comunicação entre os setores.
Etapa 2 — Padronização
São definidos campos comuns para identificação dos produtos, origem, lote, data de recebimento, condições de conservação e destino.
Etapa 3 — Integração
Os registros passam a ser organizados em uma estrutura compartilhada, respeitando as necessidades de acesso e segurança das informações.
Etapa 4 — Acompanhamento
A equipe utiliza os dados para verificar estoques, programar expedições e identificar ocorrências que exigem avaliação.
Etapa 5 — Avaliação tecnológica
Antes de investir em inteligência artificial ou sensores adicionais, a cooperativa avalia a qualidade dos registros, a conectividade e a capacidade de manutenção das ferramentas.
O exercício demonstra uma possibilidade de organização, mas não permite afirmar que haverá redução de perdas ou aumento de produtividade sem medições reais.
Estudo Aplicado Aguaraí: a transformação digital pode começar pela qualidade e organização das informações, antes da adoção de tecnologias mais complexas.
Da tecnologia à aplicação prática na agricultura
O avanço da agricultura digital depende de uma combinação de pesquisa, infraestrutura, dados confiáveis e capacidade de utilização das ferramentas.
O próprio debate realizado em Campinas destacou a importância de envolver produtores no teste e na validação das tecnologias. Essa aproximação é relevante porque uma solução tecnicamente sofisticada pode ter pouca utilidade se não estiver adaptada às condições produtivas, econômicas e de conectividade encontradas no campo.
Nesse cenário, inteligência artificial, sensores, automação e sistemas digitais devem ser avaliados pelo problema que ajudam a resolver. A tecnologia pode apoiar monitoramento, diagnóstico e tomada de decisão, mas sua aplicação depende de acesso, capacitação, integração dos dados e governança.
O desafio da agricultura digital brasileira, portanto, não está apenas em desenvolver novas ferramentas. Está também em criar condições para que essas ferramentas possam ser incorporadas de maneira segura e útil às diferentes realidades da produção agropecuária.
Perspectiva Aguaraí — Inclusão digital e autonomia na agricultura
A modernização tecnológica do campo precisa considerar as diferenças entre produtores, regiões e sistemas produtivos.
Uma solução desenvolvida para grandes operações conectadas pode não atender às necessidades de pequenas propriedades com infraestrutura limitada.
Custos, conectividade, assistência técnica, capacitação e manutenção influenciam a viabilidade das ferramentas digitais.
Também é importante discutir quem controla os dados, como eles são compartilhados e quais condições são estabelecidas para sua utilização.
A participação dos produtores na avaliação das tecnologias pode ajudar a identificar dificuldades práticas e necessidades que não aparecem durante o desenvolvimento dos sistemas.
Por isso, a inclusão digital não deve ser medida apenas pela presença de equipamentos. Ela envolve a capacidade de utilizar ferramentas de maneira compreensível, segura e adequada aos objetivos produtivos.
Perspectiva Aguaraí: a agricultura digital deve fortalecer a capacidade de decisão dos participantes da cadeia agrícola, e não criar dependências tecnológicas desnecessárias.
Leia também: gestão, inovação e sustentabilidade.
Fontes primárias: Embrapa Agricultura Digital — II Dia da Agricultura Digital (31/08/2026); Embrapa Agricultura Digital — reunião Embrapa–AgGateway (28/08/2026).

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